CANÁRIO DA TERRA - CRIAÇÃO E SELEÇÃO

Luiz Antonio Taddei

A criação de Canários é um instante fugaz no cenário da Seleção

Quantos de nós possui esse dom especial de poder retirar um canário campeão no meio de um lote de 10 meio-irmãos, aos 2 ou 3 meses de idade ? Quantos de nós conseguiu educar os olhos, suficientemente, para reconhecer aos 2 meses um filhote junto a seus 3 ou 4 irmãos ?

Que “dom” notável é esse???

  

Tecnicamente, Criação = Propagação da espécie. Para nós, amantes de pássaros cujas técnicas de reprodução e multiplicação da espécie já estão dominadas e conhecidas, agrega-se, obrigatoriamente ao termo criador, o de Selecionador.

 

O Canário da Terra, o Sicalis Flaveola, já de algum tempo tem suas técnicas de criação conhecidas, definidas e descritas por inúmeros pesquisadores amantes desta espécie de pássaros. Não cabe e nem é intenção deste nosso texto discuti-las, confronta-las ou contradize-las, porém é a de apresentarmos a nossa visão à seleção do Canário da Terra.

 

À falta do famoso “dom” capaz de identificar num grupo de jovens pássaros o melhor, somos obrigados a recorrer a velha máxima de que o trabalho de seleção constitui-se de 95% de transpiração e 5% de inspiração, ou seja, visitas a criadores, conversas, pesquisas, apontamentos, anotações, observações, acompanhamentos, etc. para desse conjunto tentarmos formar alguns conceitos que possam orientar nossa seleção.

 

A criação de Canários é um instante fugaz no cenário da Seleção. Enquanto a criação se resolve em poucos dias a seleção exige uma grande dose paciência. Salvo para aqueles beneficiados pelos ventos da sorte, a seleção é um trabalho solitário de observações e anotações por um período mínimo de 2 ou

3 anos, com diversos indivíduos para uma amostragem sólida e com total isenção de julgamentos guardar para recondução à criação os indivíduos de destaque.

 

Canários conheço muitos e os vi em liberdade em diversas regiões do país. De muitos lugares trouxe exemplares, alguns com qualidades outros meros "comedores de alpiste".  A seleção genética pode ser comprovada  mesmo  com as aves em liberdade. Existem regiões onde os canários são de qualidade ímpar, superiores. Outras são igualmente sabidas e conhecidas como o oposto.

 

O selecionador de Canários da Terra, Ivan de Souza Neto, me repassou a seguinte frase:

 

“Sabemos    que   os    Canaristas   estão    comendo   poeira    envelhecida   dos Curiozeiros”.

Segundo o Dr. Giordano:

“Os Curiozeiros aprendem com os criadores de Canários do Reino; agora os Criadores de Canário da Terra terão que correr atrás dos Curiozeiros”.

 

Inúmeros canaristas criticam essa constante citação aos “curiozeiros”, mas ambos são pássaros canoros nacionais, a seleção deles é mais antiga que a nossa e indiscutivelmente, existem uma grande quantidade de curiós já nascidos em ambiente doméstico, de primeiríssimo time. Além do que, só temos a ganhar com a observação e adequação aos canários das experiências de seleção dos curiós.

 

Mas, quais os principais obstáculos? O que fazer para acelerar essa nossa seleção?

 

Algumas medidas são de caráter individual e outras coletivas. No individual, que só a nós compete, teríamos a mudança de antigos e arraigados conceitos, que ainda não liberam para a criação os bons canários, campeões de torneios e temporadas. Despojamento de “orgulhos” para o reconhecimento das qualidades de canários de propriedades de terceiros e consequentemente o convite a levar aquele canário a criação.

 

Ter com as fêmeas os mesmos critérios de seleção que se tem com os machos.

- Mas como? a fêmea não canta e nem participa de torneios?

Pela avaliação de seus irmãos, pai e filhos. Uma canária filha de um bom canário, que tem um irmão que passe numa primeira avaliação e principalmente se já criou e produziu filhos de boa média de qualidades.

Reservando para o criatório nossas filhotas. Essas novas “F-1”, filha de canários que demonstram excelentes qualidades serão, a meu ver, a base de nosso criatório. Com elas daremos o verdadeiro início. As águas começaram a correr daqui para frente.

Essas canárias, filhas "desses" Canários serão no mínimo “Meio Sangue” (como dizem os criadores) ou seja terão no mínimo 50% dos genes que resultam no bom canário. Estamos criando nossas matrizes.  Estamos formando uma “raça”. Essas canárias não terão preço. Não podemos nos desfazer delas sob pena de voltarmos a estaca zero. Ou partimos decididos para a seleção ou seremos mais um Multiplicador de Canários. Não é isso que queremos. Não é esse nosso objetivo.

 

Pelo aprimoramento da alimentação dos canários, pássaros mais saudáveis com certeza terão a disposição necessária para exteriorizar todo seu potencial genético.

Pela dedicação de maior “carga horária” ao pássaro, verificando se sua disposição é constante e em diferentes ambientes.

Uma constante vigilância na reprodução, rejeitando e impedindo a utilização de medicamentos inadequados ou “receitados” por quem não detém  os predicados nem o conhecimento para tanto, não criando assim problemas para nossas fêmeas, esgotando-as ou levando-as a condições anormais e filhotes que apresentarão em pouco tempo quadros negativos de saúde ou comportamentos inadequados por causa de algum desequilíbrio hormonal.

 

Transcrevo trechos do pensamento e comportamento de um selecionador de curiós:

“ não utilizar fêmeas sem um estudo profundo de sua genética, fenótipo e comportamento.  ...... assim  conseguimos  traçar mapas da reprodução............................................... fiz

um mapeamento genético de todas as matrizes..... .... para ter uma linhagem definida           na fixação de caracteres desejáveis. “

E que objetivos busca esse criador (ainda trechos):

“...... excelente temperamento, possuidor de canto longo, boa voz e repetidor de

canto... ”.

 

Parecem critérios vagos, mas não o são. São, isto sim, de avaliações subjetivas, porém o conhecimento da espécie selecionada, a rigidez de princípios e a persistência aos objetivos, resultam em vitoriosos frutos. Pássaros que quando são apresentados nos torneios causam uma comoção geral.

- Pura sorte ?

Os que seguem por essa linha esperando que o acaso lhes sopre favoravelmente e lhes dê os melhores pássaros com certeza ainda são daqueles que possuem pássaros caçados. Agora na impossibilidade dessa renovação silvestre, passarão a ser ex-passarinheiros e num sem fim, recontarão as glórias de seu antigo pássaro caçado e participante de uma época onde, na “roda” um “canário de ponta” dava 80 cantos.

 

Se o resultado esperado, é obter Canários que até o olhar seja intimidador, devemos fazer uso na reprodução de pássaros de indiscutível valentia. Mas como não são criados para “brigas” não podemos esquecer que a “Freqüência de canto” deve ladear a “valentia” . E a Fibra? Não é o mesmo que “valentia”?

A “valentia” é aquele destemor que possui o bom Canário que o faz enfrentar numa “roda” inúmeros outros canários sem se intimidar. A “Fibra” , tal qual sandália de padre que mesmo desgastada continua pronta para a próxima peregrinação, faz o Canário sustentar, por horas num torneio e durante sua vida, o canto altivo e o gestual característico indicativo de sua personalidade.  O segredo desta história é sempre anotar tudo, só assim de posse de resultados é que dará para saber se tais caracteres são hereditários e como funcionam.

 

E o canto do Canário? Qual é o melhor ?

Tenho a opinião que deve ser Típico da Espécie. E dentre os típicos da  espécie o criador poderá escolher o que soa melhor aos seus ouvidos.

 

Há anos atrás presenciei uma seleção de cães pastores alemães por um experiente selecionador alemão: A cadela era recém parida; 9 filhotes. Após acurada observação o selecionador separou 3 filhotes mandando descartar os demais.

- Rígido demais? Não para a raça de cães pastor alemão. A raça já está perfeitamente padronizada e no julgamento observou detalhes que destoavam dos objetivos da raça.

 

Evidentemente que não tem comparações com nossos pássaros e nem preconizamos tal procedimento, porém só desejo demonstrar que o selecionador precisa ser imparcial e seu julgamento de avaliação de seus

 

próprios pássaros deve-se ater a critérios rígidos quanto aos objetivos traçados. Os Canários que não se enquadrarem nessas avaliações podem ser transferidos a passarinheiros não criadores ou com outros critérios de avaliação. O que não pode, de maneira nenhuma é levar à criação Canários “de Segunda” ou com falta de caracteres desejáveis só porque são “bonitinhos” ou foram presentes de amigos.

 

Entendo que aqueles que estão a procura de Beleza de Plumagem, e que tenham fixado esta característica como um dos objetivos, tem nas mutações um chamativo a mais no nosso Canário da Terra.

 

Trabalhar com mutação de cor é muito mais fácil, por ser facilmente visível e não depender de outros fatores: saúde do pássaro, alimentação, entre outros que provavelmente teriam influência na fibra e valentia. Na imensa maioria das variações de cores estão envolvidos apenas 1 ou 2 pares de genes, então é mais fácil de controlar e estudar e prever. Características como fibra e valentia podem ter mais genes envolvidos o que dificulta um estudo.

 

A mutação não é uma degeneração ou um albino, transcrevo:

Biologia : Variação hereditária, súbita e espontânea, em um indivíduo geneticamente puro. As mutações na natureza consideram-se base da aparição biogenética de novas raças e espécies.

 

Segundo o ornitólogo Paulo Flecha:

“ Uma mutação é uma alteração genética. Ocorre em todo o reino animal (o albinismo ocorre na espécie humana). O primeiro mutante não dá para prever ou fazer, digamos que é espontâneo; na duplicação do DNA ocorre um erro de cópia; pronto pode ser uma mutação de cor. Mas erros de duplicação são raros, ocorrem de vez em quando”.

 

Assim sendo é válido o cruzamento de indivíduos mutantes com os normais desde que preencham ou somem qualidades ao plantel, o perigo está na utilização dos recém introduzidos “Peruanos” e mais recentemente “Venezuelanos”. Ainda que somem certas qualidades ao plantel deve o criador/selecionador ter fixo na memória que os produtos destes cruzamentos não são indicados para repovoamentos.

 

Como é grande o número de criadores que hoje utilizam esses canários oriundos de países vizinhos nas nossas fêmeas “nacionais”, em pouco tempo saberemos da validade e oportunidade dessas introduções. O que  efetivamente acrescentarão ao nosso Canário ? O que mais além do Porte?

Talvez a criação do futuro Sicalis Flaveola Sulamericanus.

 

Com tudo isto, ainda estarei por muito tempo, atento a tudo que um Curiozeiro fala, por enquanto a poeira ainda está envelhecida, mas no futuro, quero estar lado a lado.

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