
SELEÇÃO GENÉTICA PARA FIBRA
Por Paulo Rômulo de Sousa Melo
Há muitos anos, trabalho com canários-da-terra e há aproximadamente 20 anos comecei meu trabalho de seleção genética para fibra. Desde então, muitas constatações foram surgindo e criando um entendimento sobre o assunto. Devo dizer que não sou geneticista e não pretendo fazer uma abordagem técnica do assunto, mas sim, colocar diversas conclusões que fui tirando da experiência vivida em todos esses anos.
A FORMAÇÃO DE UMA BASE SÓLIDA
Penso que a primeira e, talvez, a principal das tarefas na seleção seja a formação de uma ou mais linhagens que constituam uma base sólida para a transmissão de características buscadas na seleção. A procura por essa base me levou a conhecer o trabalho do amigo e geneticista da EMBRAPA Edilson Paiva. Desde 1987, ele selecionava uma linhagem baseada em poucos canários, objetivando, principalmente, a cor de suas mutações. No entanto, o primeiro fator de seleção era ser um canário que tivesse, o que ele chamava de fúria. Essa eliminação por esse fator o levou a selecionar também fibra. Ao adquirir pássaros vindos de sua criação pude perceber a disposição que muitos tinham para cantar de cara com outros canários. Começou aí a minha seleção genética para fibra. Pude verificar depois de alguns anos de criação que os canários vindos de uma de suas principais linhas de seleção sempre tinham e transmitiam essa disposição e, que, um grande número deles cantava e, finalizava nas rodas de fibra. A partir dessa constatação passei a selecionar buscando especificamente essa linha. Nessa linha criei, selecionei e montei um plantel de matrizes e reprodutores que transmitiam isso em uma quantidade bastante significativa, mesmo com parceiros diversos. Estava formada então uma base sólida a partir da qual teríamos condições de desenvolver um verdadeiro trabalho de seleção.
Importante frisar que ter muitos bons pássaros e, de ótimas características, em um CRO de um pássaro não significa uma base sólida. A base citada se constrói com uma linha genética bem definida com CROs conhecidos e confiáveis e com matrizes testadas nos quesitos selecionados. Vemos muitos grandes pássaros de excelentes qualidades criarem inúmeros filhotes e poucos deles terem a fibra buscada. Muitas vezes mistura-se genética de um grande pássaro com a de outro ou de outros grandes pássaros, mas sem uma sequência lógica no sentido de se formar uma linhagem. Vemos daí saírem alguns ótimos pássaros, mas, normalmente, não é o caso da grande maioria dos criados nessa linha e a sequência de resultados fica seriamente comprometida.
Como nós selecionamos temperamento e não características físicas, precisamos de uma avaliação mais apurada do comportamento do pássaro e, por isso, a manutenção do vigor híbrido se faz importante para que não percamos essa ferramenta de avaliação. Por esse motivo, tanto no trabalho do Edilson quanto no meu, vocês raramente verão cruzamentos em linha, buscando tirar os F2, F3, F4 e assim por diante. Aqui, faço diversos cruzamentos próximos, mas invariavelmente abro um pouco no cruzamento seguinte para não comprometer o vigor híbrido.
Já trabalho com uma base sólida nos canários-da-terra e há doze anos venho trabalhando na criação de bicudos na busca dessa base sólida.
A BUSCA DO APRIMORAMENTO DA SELEÇÃO
Tendo formado uma base segura, na qual se possa confiar e tendo por isso criado condições para avaliar os produtos dos cruzamentos seguintes, é hora de partir para a introdução de pássaros expoentes, testados nas características buscadas, visando formar campeões. Está na hora de começarmos a buscar mais detalhadamente alguns fatores que possamos considerar de grande importância na busca por campeões. Para fibra podemos pensar em mais ou menos valentia, para conseguirmos o equilíbrio buscado, dureza para enfrentar grandes maratonas de viagens e torneios, mantendo o desempenho buscado, retomada de canto, canto curto nos caso de canários, coleiros e trincas ou canto longo com repetição para os bicudos e curiós, e outros fatores que julgarmos importantes. É a sintonia fina e é com o aprimoramento desses quesitos que conseguiremos dar mais um passo importante no caminho da seleção.
Após alguns cruzamentos nessa linha e a conseqüente avaliação de seus produtos, verificaremos quais pássaros introduzidos apresentaram uma evolução significativa se comparado com os resultados obtidos anteriormente com a linha genética base. Então, partimos para a fixação dessas características com cruzamentos da mesma forma utilizada anteriormente para formar uma nova linha base.
Podemos, então, formar uma linhagem derivada da primeira, fechando nos cruzamentos seguintes pássaros com descendência e características de um determinado pássaro introduzido, sem fugir da base sólida, mas sim, formando uma nova base sólida já com os melhoramentos conseguidos. Nesse caminho, tenho trabalhado na formação da linhagem Pit Bull, partindo sempre de matrizes da base anterior a qual chamo de linhagem Rabicó, por ser esse o principal padreador na sua formação. Hoje já considero Pit Bull como parte importante da nossa linhagem fixada.
Tendo em mãos algumas linhagens diferentes, podemos fazer o cruzamento entre indivíduo de uma e outra, sempre buscando a evolução dos quesitos eleitos para serem selecionados e avaliarmos os resultados, nunca nos esquecendo de fixar os avanços conseguidos através dos cruzamentos até atingirmos nova base sólida e melhorada.
A IMPORTÂNCIA DAS FÊMEAS
Considero o plantel de matrizes o grande tesouro do verdadeiro selecionador. Notamos no dia a dia as citações dos pássaros filhos desse ou daquele macho de nome, valorizando o produto, mas lembre-se: a grande maioria dos filhotes tende a não corresponder se a escolha das fêmeas não for considerada com o devido cuidado. Apesar de esse ser um assunto vital no processo de seleção para fibra, eu não vou me alongar nele, pois foi tratado de forma brilhante em um boletim escrito pelo Dr. José Carlos Pereira. Clique aqui para ver o boletim.
PRECOCIDADE E A MATURIDADE NEUROLÓGICA
É muito comum ouvirmos de algum criador que determinado pássaro era um fenômeno quando filhote, mas que, depois de adulto, não deu em nada. Pois bem, um dos fatores que busco em minha seleção é precocidade, simplesmente por me permitir avaliar mais cedo o comportamento de um pássaro, embora eu acredite que essa característica seja somente uma ferramenta de avaliação e não significa que o pássaro será melhor ou pior depois de adulto. Mesmo sendo precoce, um filhote é um filhote e como tal deve ser criado, tendo todos os cuidados para não forçá-lo desnecessariamente antes que ele atinja sua maturidade neurológica. Não conheço nenhum estudo que determine qual é essa idade, mas vejo, por experiência, que para alguns pássaros ela só venha com quatro ou cinco anos de idade, mas nunca antes de 2 ou 3 anos, mesmo para as espécies mais precoces. É muito fácil estragar um bom filhote, pois os criadores se apaixonam pela cria e passam a exibi-los e colocá-los em disputas desnecessárias antes que atinjam sua maturidade. Mesmo para a espécie humana não há como se determinar a idade exata que se atinge essa maturidade, pois há diferenças individuais importantes. Pensem que mesmo um jovem atleta muito talentoso, raramente entra nas equipes adultas antes de 18 anos de idade e que ao submeter um jovem pássaro às disputas prematuras seria algo como promover crianças e jovens com 10, 12 ou 14 anos às equipes adultas. As conseqüências sobre a formação desses jovens podem ser imprevisíveis, assim como nos pássaros. Conheço pássaros que só se mostraram aos dois, três anos de idade ou mais e que se tornaram expoentes nas disputas.
A SELEÇÃO GENÉTICA COMO INSTRUMENTO DE COMBATE AO TRÁFICO
Acredito que ao produzirmos pássaros de melhores qualidades, CROs conhecidos e testados, e com os mesmos se destacando nas competições, ganharemos uma dianteira importante na procura pelos nossos se comparados aos pássaros vindos da natureza. Como o objeto de desejo da grande maioria dos passarinheiros é o pássaro diferenciado, quanto mais trabalhos de seleção elaborados tivermos, mais forte o interesse por nossos pássaros e estaremos atingindo essa concorrência ilegal e imoral nos seus pontos mais fracos: o valor agregado do produto e o interesse do mercado. Por esse motivo considero como o maior contracenso a limitação da criação pelos criadores amadores, pois os impede de selecionar já que, como vimos acima, a seleção passa por inúmeras etapas e se fazem necessárias a produção e manutenção dos indivíduos até poderem ser avaliados, com testes de muitos cruzamentos possíveis. Sem selecionar o criador será somente um multiplicador e seu produto estará fadado a não ter diferencial competitivo importante com os pássaros vindos do tráfico. Apoio todas as iniciativas positivas para de combate ao tráfico ilegal, como as novas anilhas, exames de DNA e outros métodos, mas nunca limitar a criação.
CRIAR É PRESERVAR
Artigo escrito para a revista Passarinheiros & Cia, edição 69 , e atualizado em 29/12/2020.