DO CANÁRIO "MATEIRO" AOS NOVOS CRITÉRIOS DE SELEÇÃO

Luiz Antonio Taddei

Naquele dia estava saindo mais tarde. Talvez 7:00. Quando “fazia” as cidades vizinhas podia me dar ao luxo de sair “tarde”. Não eram muitos os quilômetros e mesmo com as precárias condições das estradas de acesso às pequenas cidades, dava para atender a clientela e vir dormir em casa. No final dos anos 60, era vendedor viajante numa área que abrangia o Vale do Paraíba, Litoral Norte, Serra da Mantiqueira e parte do Sul de Minas.

O que me prendeu a atenção não foi o jeito simplório do vestir, nem a botinão de “carregar pela boca”, comum na época, nem o caminhar com a espinha ligeiramente arqueada e os ombros jogados para trás, fazendo avolumar a barriga já bastante volumosa que balançava sob a fina camisa xadrez, mas, a sacola, de lona, tipo de feira (na época não era ainda costume usar as capas próprias para gaiolas), de onde avistava-se a parte superior de uma gaiola retangular. Não dava para ver o pássaro, mas ouvia-se um canário da terra cantando meio repicado. Depois do cumprimento, falou:

_Você ainda está querendo um Canário Mateiro?

Na verdade, já o conhecia; algumas vezes caçamos juntos. Embora tivesse emprego fixo na Central do Brasil, seu “negócio” eram os pássaros. A fama de “roleiro” era grande. Ante o afirmativo da resposta, completou:

_ Esse veio de Minas. De Cristina. É mateiro do melhor. Foi o Lalai (um sujeito magrinho que trabalhava na estação da Central do Brasil e “louco” por uma caçada de pacas, mas era companheiro certo para qualquer caçada), quem trouxe. Deu uma espingarda 28, “Troxada Damasco” de dois canos, de cão, quase nova. Foi experimentar lá perto de Brasópolis enquanto a turma ia caçar batuíras. Pegou na manhã 12 amarelos de ponto e um pintado que deu o maior trabalho. Só trouxe o pintado que já está até cantando.

 

Tirou a gaiola da sacola, pôs em cima do murinho do jardim. O canário deu uma sacudidela para arrumar as penas e deu um estalo rápido e repicado. Ao ouvir a resposta de outro canário dentro de casa, teve início uma disputa. O recém chegado mostrava-se disposto. A disputa ia canto a canto. O do interior da casa, fogoso e de “gênio” bravo, de dentro de seus domínios, estalava mais batido e compassado, o “mineiro” estalos curtos, rápidos e repicado. Larguei a maleta e tornei a guardar as amostras que iriam na já postergada viajem de trabalho.

Tentava dissimular o interesse. Sabia que a negociação não seria fácil nem rápida.

 

_ O Lalai não queria dispor do canário. Falou que chegou a pega-lo, dentro do “bate” e ele saiu cantando na mão. Cada canário que caçava além do pega no “bate”, o mateiro caia em cima, e tinha que tirar o outro rápido senão ele “matava” o caçado. Mas ele gostou muito de um curió meio carijó, bonito, cheio de penas brancas na cabeça, canto bom, “Carpição” puro, repetidor que eu trouxe de São José. Quer dar o canário no rolo, mas para mim é caro; só posso fazer o negócio com o Lalai se eu achar alguém que goste e fique com o canário.

_ Diga o que vale? 

 

_ Prá jogar fora ! Oitenta contos !

_ Oitenta mil cruzeiros ? É muito caro ! Acho que não vai dar para ficar.

 

O canário parecendo advinhar que estávamos falando dele, aumentou a quantidade de cantos quase não deixando o outro, bom e seguro no interior da casa desfilar seu compassado estalo.

_ Oitenta é muito. Vamos conversar direito.

Nos anos sessenta, antes do advento dos torneios, pelo menos em nossa região, a caçada era permitida e legal, nossa atenção sempre esteve centrada nos Canários Mateiros (o mateiro não significava de origem do mato ou capturado no mato, o termo indicava ser um bom “chamas” ou “negaça”). Depois de muita conversa e estórias das qualidades do canário, acabamos fechando por sessenta mil, que seriam pagos em algumas vezes.

Acertar um Canário com as qualidades de “Mateiro” era tão difícil quanto um canário bom de roda, nos dias de hoje. Se hoje nas rodas os canários permanecem por 4 ou até mais horas até a contagem final de classificação, o “Mateiro” também saia de casa ainda escuro, talvez no alvorecer, enfrentar longas caminhadas por estradas de terra esburacadas e cheias de solavancos, até que chegássemos às fazendas ou sítio onde começaríamos as caçadas e dali viríamos voltando, armando o “bate” em cada volta de estrada que houvesse um curral, uma horta ou um possível vestígio de um ponto de um briguento. A iniciativa tinha que ser sempre do “Mateiro”; ele não podia parar de cantar pois senão não atrairia, sem o desafio, o dono do ponto que na maioria das vezes se aproximava com duas ou três escaladas e já estava estalando ao lado da gaiola. Não raras vezes o canário “mateiro” que se acreditava de qualidades, “dormia” atemorizado pelo dono do local.

Esses “mateiros” cheios de qualidades, envoltos em mistério e magia, precursores do atuais pássaros de torneios, cuja fama não raras vezes ultrapassavam as barreiras dos municípios, eram considerados como obras do acaso. Os “experts” de então, leigos, iguais à grande maioria dos criadores dos diversos animais domésticos cuja seleção era feita mais pela simpatia e carisma de seus reprodutores do que pelos seus predicados, tentavam atribuir tal aparecimento a toda sorte de sinais exteriores, nunca bem explicados, que nada diziam e na verdade eram comuns à grande maioria dos canários e não à possível seleção endogamica de um grupo de bons pássaros localizados em determinado sítio ou região.

O tempo passou, os costumes mudaram. Da mesma forma que deixamos de consagrar os recém nascidos meninos à Virgem Maria, vestindo-os com outras cores além do azul, não se caçam mais canários nem se valorizam mais os “mateiros”. Mas, para muitos, os conceitos de seleção e explicações pelo aparecimento de um bom pássaro ainda não evoluiu e está mais ligado ao acaso que ao processo de seleção e dedicação do criador. De certa forma não é de todo infundado de razões e explica-se esse arraigado conceito pela ausência de produção contínua de produtos com regularidade de qualidade pelo mesmo criador. É comum tal criador produzir um grande número de filhotes mas apenas 1 ou 2 conseguiram destaque como portadores dos objetivos da seleção. Ao grande contingente restante, que precisa ser comercializado, dizem ser “portadores” de tais qualidades, “apenas não as exteriorizam”.

 

A mudança desse perfil, a constante referência a selecionadores criteriosos e o surgimento de novos criadores capazes de produzir uma significativa parcela de filhotes com qualidades homogêneas, está acontecendo principalmente pela espontânea e disfarçada qualificação dos criadores de pássaros, onde vemos :

  • Maior intercâmbio entre os criadores com a contínua troca de informações e divulgação de resultados obtidos;
  • Divulgação de trabalhos técnicos na área de seleção animal;
  • Desprendimento de antigos conceitos e critérios;
  • Seleção com objetivos claros, estabelecimento de metas;
  • Persistência na busca de resultados;
  • Avaliação judiciosa dos produtos; e
  • Retirada do plantel de todos os reprodutores de qualidades duvidosas incapazes da transmissão de suas qualidades e ou de produtos que não se enquadrem nos critérios

Pode parecer difícil e longo o percurso, mas muitos criadores já estabeleceram suas bases e metas, acreditando que seja essa a “nova” realidade da criação de nossas aves nativas, com qualidades superiores e efetiva exteriorização dos objetivos do selecionador.

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