TRÊS DIAS

Luiz Antonio Taddei

Telegramas sempre nos provocam sobressaltos. O “venha urgente” era inquietante, mas o “Traga o canário” era tranqüilizador. O Bento nunca teve telefone; não gostava. Daí o telegrama. Programei: vou, na sexta feira.

Saí cedo, não que a viagem fosse assim tão longa, mas queria aproveitar o dia e o final de semana. Ao sair da estrada asfaltada e entrar na estrada rural vi que apesar de fazer só 4 anos que lá estivera pela última vez, tudo estava diferente; mudado. Onde antes pastavam vacas agora aflorava um grande loteamento; muitas casas em construção, ruas sendo abertas, pedreiros,  máquinas trabalhando. Um córrego sinuoso que cortava a estrada havia sido retificado e no lugar da velha ponte de troncos de eucaliptos, lá estava uma de concreto. Cimento para todo lado.

Pelo menos a porteira da fazenda ainda era a mesma; dela não se avistava a sede da fazenda, apenas uma pequena Orada, vazada, feita de alvenaria. Num pequeno arco, onde pendia um sino pesado, a pequena cruz tinha a missão de induzir ao caminhante a um momento de reflexão interior. Muita gente local pensava que lá havia morrido alguém, mas não, a idéia e intenção eram de chamar o caminhante para um momento só seu e mostrar que ali havia cristãos. Pouco adiante um cocho de sal para o gado e sob a cobertura de sapé, protegida, uma casinha de madeira onde sempre nidificaram os canários.

Parei um minuto na orada; vi a velha casinha dos canários, mas não os vi por ali. Antes de prosseguir, dei as três badaladas no sino, sinal que indicava visitas. Virando a curva da estrada feita na parte baixa e acompanhando o ribeirão, revi a sede da fazenda. Fui saldado pela gritaria dos gansos e por dois cachorros americanos que ensaiaram um toque. Lá estava meu amigo Antonio Bento.

Foi logo me dizendo o porquê da urgência. Havia vendido a fazenda. Contou-me que seu antigo vizinho falecera e que os herdeiros venderam a propriedade para uma grande empresa da capital e esta estava preparando o local para a implantação de um indústria e um núcleo habitacional para seus funcionários. Como não queria ser vizinha de fábricas, vendera sua propriedade também e tinha só mais três dias para providenciar sua mudança. Já estava tudo providenciado, só que faltava pegar os canários que criava soltos. Iria levá-los.

_ Notou que o casal do cocho de sal não está mais lá? Então foram caçados por um pessoal novo que veio para a implantação da fábrica. E antes que cacem os que estão em volta da sede vamos pega-los que irei levá-los para a nova fazenda. Especialmente o “Sentinela”, aquele amarelão bravo que cria no piquete dos bezerros. Já tem muito filhote seu por aí e todos com o mesmo canto, que muitos dizem lembrar o “Metralha”, mas que denomino “Matraca”. Lembra mais o som da matraca do sacristão na chamada da procissão.

Entendi o porquê do “Traga o canário”. Estava triste com a mudança, mas ia ser uma “festa” com aquela canariada brava que criava por volta da sede e do curral. E eram muitos.

Passamos o canário para o “bate” (uma gaiola especial de caçadas, feita com varas de Uva, tela dupla, alçapões laterais, sem molas, porém acionados por uma vareta de guarda chuva, que fecham as tampas de um pequeno compartimento onde ficam aprisionados os pássaros que vêm para brigar). Rústico, mas funcional. No primeiro estalo já atraiu um macho amarelo, bravo, que igual flecha, veio direto para a gaiola, disposto e intimidar e expulsar aquele invasor. Foram dois ou três cantos de um lado, outros tantos do outro, um convite à briga e lá estava o nativo agora preso no alçapão, logo retirado para evitar que fosse maltratado pelo nosso “mateiro”. Esses nossos canários bons de disputas de canto, que não partem facilmente para o confronto físico, e que só atacam quando vêm o opositor retido e comprimido pelo alçapão são, em muitas regiões, chamados de “mateiros”, não significando que sejam ”do mato”, mas “bons de mato” ou então ”negaças”.

Inauguramos o grande gaiolão destinado a acondicionar todos os canários capturados para a mudança. Quantos mais caçávamos melhor ia ficando nosso “mateiro”. Ao todo foram 12 amarelos e 4 bons pardos, mais uns 20, alguns machos, uns pardos e muitas fêmeas que foram “caçados” com uma peneira a guisa de arapuca, mas, faltava o melhor: o Sentinela.

Dia seguinte, bem cedo, armamos o bate no mourão da cerca do piquete. Canto daqui, canto de lá e uma disputa que durou hora. De vez em quando o Sentinela dava uns vôos meio rasantes sobre a gaiola com intuito de intimidar o “chama”. Esse jogo de ameaças só foi interrompido quando a fêmea do Sentinela chegou junto e “empurrando” seu companheiro pelo fio do arame, praticamente o obrigava a atacar e expulsar aquele invasor. Eram 5 ou 6 cantos e o avanço de um “gomo” da farpa. Com o constante “currichiado” da fêmea, o “chama” também foi ficando agressivo e já cantava grudado na tala do bate. Mais uns cantos e o canário solto pula sobre a gaiola e espera sua fêmea que vem e pousa na tampa aberta do alçapão do bate. Não sei dimensionar a “adrenalina” dos canários, mas a julgar pela nossa, participantes passivos desse momento, deviam estar no limite. De repente, talvez obedecendo a um comando gestual da fêmea, ambos, macho e fêmea, soltos, atacaram o “chama”. Ambos ficaram aprisionados no pequeno compartimento do alçapão. Atacado pelo “chama”, mesmo com os movimentos limitados, o valente Sentinela tentava se defender. Foi emocionante. Estávamos radiantes em ter a oportunidade de presenciar o desempenho dos dois canários e a fibra e determinação daquela canária que não só incentivou seu macho como também partiu para o ataque. Com certeza dessa fêmea só sairiam bons produtos. Ficamos aliviados. Esse casal foi colocado em gaiola individual, os demais, em dois grandes gaiolões onde fariam a viajem.

Feito o que tinha que ser feito, não quis ficar para ver embarques e ao me preparar para retorno, o Bento me entrega um mapa com todas as indicações para chegar à nova fazenda e diz:

_ “Te espero lá... Me dê mais uns anos e vá ver os canários que irei criar... Se fosse empresário, largaria tudo... iria para a cidade, mas sou “tirador de leite” por paixão e profissão. Continuarei na lida... A nova fazenda é 22 quilômetros mais longe. É bem possível que um dia, o progresso chegue lá também... só espero que não me encontre com vida”.

Virou-se e foi acabar de arrumar a mudança. Não precisou dizer mais nada. Aliás, nem eu disse. Entrei no carro e parti. A porteira de entrada tinha sido aberta por um grande caminhão que ia fazer a mudança.

Dei uma última olhada para a Orada; só aí me dei conta que era uma despedida. Não olhei para trás. Queria guardar apenas boas lembranças.

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