XODÓ PIRES

Luiz Antonio Taddei

I

A cidade de Santa Branca está localizada em duas encostas de morro. Morros altos. No morro principal e mais antigo, quase ao alto da encosta, fica a praça Ajudante Braga, a principal da cidade, tendo ao centro a Igreja Matriz, rodeada por um casario colonial, dentre os quais a Câmara Municipal e a Casa Paroquial. A parte baixa da praça, é cortada pela Rua de Baixo, mais conhecida como a rua da Prefeitura, que contornando a meia encosta, abriga as principais lojas de comércio de abastecimento da cidade, entre os quais e ainda de frente para a parte baixa da praça o tradicional armazém do Joaquim Pires, mais conhecido como Quinzinho Pires. Tradicional pelo número de anos que o estabelecimento estava aberto mas sempre conservou sua característica de “Venda” interiorana e era freqüentado principalmente pelos moradores da zona rural.

Seu Quinzinho era um homem enjoado, de poucos amigos e de pouco conversa, daí, nem mesmo seus vizinhos ou os comerciantes da rua mal trocavam um “bom dia, boa tarde”, um ou outro, parava mais para ver e ouvir um azulão e um pássaro preto que moravam nos pregos logo na entrada da venda. Na mesma rua, uns duzentos metros adiante e já fora da visão da praça da Matriz, tinha o Açougue Central, cujo dono o André, além de açougueiro e passarinheiro era o seresteiro local. Pelo menos duas vezes por semana, lá pelas 10 horas da noite, parava na porta do armazém e sempre cantava “A deusa da minha rua” e “A normalista”, gravações de Nelson Gonçalves, que ele procurava imitar. Tinha segundas e terceiras intenções com a filha única de Seu Quinzinho. A bandida era bonita, mas vivia sob severa vigilância de Seu Quinzinho e Dona Sofia que sabedores da fama de “mulherengo” do açougueiro seresteiro, não gostavam que ele chegasse nem perto, nem mesmo quando a conversa era sobre os passarinhos. O André tinha na porta do açougue um curió que era uma das poucas atrações da cidade. Dizia que era “canto Central” e que “passava” até 10 cantos. Ninguém ainda tinha visto ele cantar tanto e nem mesmo sabiam ao certo classificar aquele tipo de canto, mas à falta de conhecimento sobre o tipo de canto, todos repetiam que era um curió Repetidor e de Canto Central. Seu Quinzinho era “doido” pelo curió, mas não querendo dar margem nem qualquer pretexto para uma aproximação do açougueiro com sua filha, curtia calado o canto que ouvia quando disfarçadamente passava defronte ao açougue.

II

Determinado dia, o vendedor da Refinações de Milho Brasil, que fazia a praça e região e o visitava a cada dois meses, ao saber do interesse do vendeiro por pássaros e desejo de comprar o famoso curió da rua, após preencher o pedido, puxou o assunto:

 

_ Meu cunhado, de Campinas, está conseguindo criar uns curiós no viveiro e fica tocando um disco o dia inteiro. Ele diz que é para os filhotes aprenderem aquele canto. Eu não sei que tipo de canto é, mas que o curió dele canta, ah! isso canta e o dia inteiro. Se o senhor quiser posso perguntar a ele se ele vende um filhote.

 

Os olhos do comerciante até brilharam. Será que o homem conseguia criar curiós ? Será que venderia um machinho ? Ficou louco.

_ Não será muito caro ? perguntou com a voz meio falhada e rouca.

 

_ Vou ver o que eu consigo e se não for loucura, na minha próxima viagem, trago.

Foram os dois meses mais longos da vida de seu Quinzinho. Todo dia olhava na folhinha e contava os dias restantes. Não contara nada para ninguém. Nem dona Sofia sabia do negócio. Vai que fosse caro. Começou a juntar, escondido, algum pouco que tirava do caixa. Para fazer dinheiro, procurou o barbeiro do outro lado da praça, que vivia insistindo para comprar o azulão e o vendeu dando o pássaro preto para endireitar o negócio.

Finalmente chegara a semana da visita do vendedor da Maizena. Já estava tomando chá de Melissa para poder controlar os nervos. Andava tão concentrado na espera que até as recomendações costumeiras de modos e linha à sua filha, estavam esquecidas. Quando a perua amarela e colorida do vendedor parou em sua porta, largou até um freguês antigo, que estava sendo atendido, esperando. Saiu quase correndo ao encontro do recém chegado. Ao vê-lo descer do carro com uma gaiola coberta com um jornal, ficou sem fala, nem sentia a respiração e o coração disparado.

 

_ Oi seu Quinzinho. Taqui o bicho. É pardo mas é macho garantido. Meu cunhado falou para o senhor estimar que é filho de um curió muito repetidor. Falou também para o senhor torcer para ver se ele aprendeu o canto do disco do Marajá.

 

Seu Quinzinho está no céu. Desembrulhou a gaiola, admirou o pardinho e pela primeira vez viu um passarinho de anelzinho na perna. Correu a trocar a água do bebedouro e pendurou a gaiola no prego antes ocupado pelo azulão. O negócio foi feito e o preço mais alto do que esperado consumiu além das economias juntadas, um relógio, de bolso, Patek Phillipe, que herdará de um tio. Mas estava feliz. O curiozinho, só churriava, de vez em quando saia um começo de assobio, mas teve gaiola nova e a exclusividade das atenções.

Um dia... ah, esse dia nunca mais será esquecido – o curió amanheceu assobiando. Na verdade foi só um cantinho, mas o bastante para se sentir recompensado pelo preço pago. Que canto lindo! Diferente! “este curió vai longe”, pensava e torcia.

 

O tempo foi passando, os corrichiados foram sumindo e os assobios prevalecendo. Já começava a aparecer gente querendo ouvir o tal assobio diferente do curió. Mudado, surge preto e brilhante. Os assobios limpos, o canto definido que repetia na mesma seqüência de notas nunca antes cantadas por outro curió da cidade. Não era o “Central”. Aliás era bem diferente, muito mais variado e rico. Como um troféu era exibido na porta do armazém com satisfação e orgulho. Os dois bancos de cimento do final da praça que ficavam defronte ao armazém passou a estar permanentemente ocupado pelos passarinheiros locais. De repente estavam ocupados por rostos desconhecidos, gente vinda de outras cidades: a fama do curió “ultrapassava as fronteiras”.

 

Agora a cidade tinha além da famosa cachaça “Luiz de Souza”, dos peixes e da velha ponte de ferro sobre o Rio Paraíba construída pelo famoso escritor Euclides da Cunha, do casario colonial principalmente nas tradicionais fazendas leiteiras, mais um atrativo: O Curió do seu Quinzinho.

A fama o fez sentir-se possuído de um sentimento que até então nunca sentira : Orgulho. Achava que era mais conhecido que o Prefeito. Gente que ele nunca vira vinha conversar com ele. “Preciso marcar esse curió“, pensou. No relojoeiro da cidade, mandou gravar numa plaquinha de bronze, com o nome que escolhera para o pássaro e prendeu na gaiola : “Xodó Pires”. Com medo de um “mau olhado”, colocou dentro da gaiola uma figa vermelha e preta presa com uma fita das mesmas cores.

III

Os bancos da praça nunca estiveram tão ocupados e o armazém nunca fora tão visitado. Até o Pintinho, dono da loja de roupas e vereador por paixão, que nuca se dera bem com o Vendeiro, já tinha se achegado. Já tinha ouvido falar que tinha gente criando curió em casa, mas ainda não tinha visto. Pensava que se conseguisse adquirir o Xodó, que já era criado, seria bem mais fácil começar sua criação. Fêmeas não faltavam na região. Começou adquirindo uma na cidade e mais duas nas cidades vizinhas. Pronto. Só faltava o Xodó.

_ Ôoo, seu Quinzinho; O Xodó têm negócio? - O André do açougue, já não se agüentava mais. Seu Central perdera o status de grande cantador e campeão da cidade. O Xodó além de cantar mais bonito repetia muito mais. Se tivesse preço seria seu. Sabia também se demorasse talvez fosse vendido para outro.

_ Vou fazer uma oferta irrecusável. Calcule o preço do Patek Philipe e o que deu em dinheiro; dou o dobro. – Para o açougueiro foi um tiro no escuro, ia esperar o homem por o preço e depois tentar negociar.

A proposta aparentemente tentadora foi encarada de forma diferente, provocando uma adversa reação:

_ Olha aqui, seu André ! Primeiro o senhor vem cobiçar minha filha com essa sua cantoria noturna. Ainda bem que Maria de Lourdes não caiu nessa sua conversa mole. Agora o senhor vem querendo comprar o meu Xodó ? Nem quero saber de propostas ! Gosto desse curió com um filho homem que não tive. Até dei meu sobrenome prá ele.

 

O André não se deu por vencido, precisava eliminar a concorrência e divulgava para todos que havia feito um pacto com o Vendeiro que se o pássaro fosse vendido ele teria a preferência. Muita gente acreditou, passando a se referir ao Vendeiro e ao Açougueiro como “gente de outra laia, da pior espécie”.

O tempo passa, a fama aumenta e com ela o ciúme do Vendeiro pelo curió, que já não o exibia o dia inteiro na porta do armazém. Ficava só na parte da manhã, sob severa vigilância. A tarde era colocado prá dentro, nos fundos do armazém onde começava sua casa de residência. Da rua ainda dava para ouvir um pouco do canto do pássaro. O assunto nos bares e nos bancos da praça era um só: O curió e seu mesquinho dono. Após muitos goles da “Luiz de Souza”, os passarinheiros da cidade chegaram a uma conclusão definitiva: Seu Quinzinho não queria amigos.

IV

Um dia, seu Quinzinho não acorda. Tinha morrido durante a noite, dormindo. Enfarte agudo. A notícia rapidamente espalhada causou um alvoroço na cidade: O que será do curió ?

Os móveis do armazém foram empurrados para os lados de modo a caber ao centro do salão o caixão do finado. O velório seria realizado ali mesmo onde ele passara a maior parte de sua vida.

Os parentes e alguns poucos amigos foram chegando sempre com a postura e atitudes típicas de velório: Uma breve oração junto ao falecido e as condolências à esposa e filha. Mas junto com esses poucos amigos, começou a chegar gente apenas conhecida e outros cujos rostos não eram familiares que depois de uma rápida olhada no caixão, varriam com os olhos as paredes a procura do curió. Essa era a grande chance que todos aguardavam de poder chegar perto do curió e quem sabe adquiri-lo da viuva.

 

_ Quero, como amigo da família e vizinho de comércio, fazer uma homenagem ao nosso querido Quinzinho – Antecipou-se o açougueiro André, percebendo a concorrência; - Dona Sofia, a senhora sabe da amizade que nos unia (ela, na verdade, desconhecia essa amizade). Tínhamos muita coisa em comum. O comércio na mesma rua, o carinho por Maria de Lourdes, quase que viro seu genro e por que não dizer, seu herdeiro. Mais de uma vez conversamos sobre isso (sabia que era mentira, mas manteve o ar sério) e ele me falou: “Meu filho, era assim que ele me chamava, você é o homem ideal para cuidar de Maria de Lourdes e de minhas coisas queridas.

Parou um momento para ouvir o curió que dos fundos do armazém soltava um de seus longos assobios. Continuou:

_ A paixão pelos curiós nos uniu. Vai em paz Quinzinho. Cada vez que ouvir esse curió me lembrarei do amigo.

Dona Sofia se derramou em lágrimas. Não esperava tal demonstração de amizade. Maria de Lourdes não sabia o que pensar; a morte repentina do pai, aquele meio pedido de casamento feito naquela hora a deixaram confusa. Será que as intenções do André eram boas mesmos?

Os amigos do curió entreolharam-se e viram diminuir as chances de conseguir o almejado pássaro. Depois daquele discurso, o André já estava pondo as mãos na gaiola.

 

Pintinho, o tal vereador e comerciante de roupas, já tinha até comprado as fêmeas de curió; não podia se deixar derrotar assim sem mais nem menos; afinal o político ali era ele e discurso era sua especialidade. Ele é que estava acostumado a discursar. Quantas vezes, na Câmara, falou por horas no convencimento de seus pares na aprovação de algum projeto mais polêmico. Rapidamente, foi a ação, levantou-se e começou:

 

_ Dona Sofia; Maria de Lourdes; amigos: Em meu nome, em nome da Câmara Municipal de Santa Branca e da Associação Comercial (não existia, mas precisa impressionar), preciso registrar algumas palavras:

_ Contamos os anos de amizade que mantivemos com o Quinzinho não pelo tempo, mas pelo espaço que abriu em nossos corações ... (numa olhada no salão percebeu que aquela abertura causara efeito). Não pelos frutos que colheu, mas pelo terreno que preparou e pelas boas sementes que lançou ... Não pelo anos que passou entre nós, mas pelo que fez nestes anos... Não pela quantidade dos que o amaram, mas pela medida de seu coração foi capaz de amar a todos ... (Dona Sofia recomeçou a chorar; desconhecia essas qualidades e não sabia que o marido despertava tantos sentimentos). Mantivemos os mesmos gostos e as mesmas paixões ... Enviei hoje à Câmara Municipal (tirou do bolso um papel qualquer achado na hora, acenando com ele aos presentes) um ofício apresentando dois projetos de lei: O primeiro para que seja alterado o nome dessa rua para Rua Joaquim Mariano Pires, assim ele será sempre lembrado, pelo muito que fez pela rua e pela cidade onde a vida inteira viveu e dignificou com seu trabalho; em segundo atendendo um desejo só a mim revelado: (Dona Sofia se espantou: que desejo será esse???) ver imortalizado em nossa cidade a lembrança desse pássaro que lhe deu tantas alegrias e que ele tinha como um filho. Assim, requeri à Câmara, que a rua nova, ainda sem nome, atrás do posto do leite, passe a se chamar Rua Xodó Pires, e que na placa conste: “filho dileto de Quinzinho Pires”.

A viuva e sua filha nunca haviam chorado tanto. Até parentes mais distantes que foram apenas para o enterro estavam chorando copiosamente. Que homenagem! Que amigo tinha o Quinzinho !

Guardou o papel no bolso, antes que fosse visto o que nele estava escrito, cumprimentou novamente a viuva, a filha e dirigiu um olhar sorrateiro ao André

– pensava, “conheceu, papudo”.

Dois dias após o enterro, a viuva Sofia aparece na loja de roupas:

_ Seu Pintinho ... eu, Maria de Lourdes e mais meus parentes decidimos fechar e vender o armazém; vamos morar em outra cidade para que Maria de Lourdes possa continuar seus estudos. Decidimos também que dentre os amigos do Quinzinho o senhor é a pessoa certa para ficar com o Xodózinho. Vá lá em casa buscar.

Ao amanhecer do dia seguinte, dúzias de “Caramurús”, acordaram a população. Dizem que nem na festa da Padroeira teve tantos fogos. Poucos sabiam quem era o Fogueteiro. O Pintinho sabia. Estava iniciando nova atividade: Criador de Curiós.

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