Dr. José Carlos Pereira
Há um grupo de bactérias chamadas enterobacteriáceas porque vivem no intestino (entero = relativo ao intestino), principalmente no cólon, embora possam também colonizar outros habitats. Têm a forma de bacilos (bastonetes), vivem em ambiente com oxigênio (aeróbias) ou sem ele (anaeróbias facultativas), fermentam a glicose produzindo ácidos e gases, possuem cromossoma com duas hélices de DNA e algumas apresentam flagelos que facilitam a movimentação. Resistem ao ambiente ácido do estômago e ao ambiente alcalino, detergente (determinado pelos sais biliares) e rico em enzimas do intestino delgado. Algumas são apenas comensais e outras podem ser extremamente patogênicas como as Salmonellas, as Shigellas, a Edwardsiella, o Citrobacter e a Yersinia. São resistentes a muitos agentes físicos, mas podem ser mortas pelo calor de 54.5O C por uma hora ou 60O C durante15 minutos. Permanecem viáveis alguns dias na temperatura ambiente ou nas baixas temperaturas e durante semanas no esgoto, alimentos secos, agentes farmacêuticos e material fecal. São bactérias de grande plasticidade genética que permite viverem em vários habitats.
Usando-se os antígenos somáticos O e H, foram catalogados seis biotipos e mais de sessenta serotipos da Yersinia enterocolitica e seis serotipos maiores e seus subtipos da Yersinia pseudotubeculosis. A incidência é alta nos países escandinavos e no norte da Europa, mas pode haver subdimensionamento do problema em outros países. Elas são móveis a 25O C e imóveis a 37o C, crescem bem, embora lentamente em meios de cultura não seletivos como o agar sangue, mas o meio de cultura rotineiro usado nos laboratórios para essas bactérias é o agar MacConkey; multiplicam-se numa ampla faixa de temperatura de
–1O C até 45O C. Já foi isolada no solo, na água fresca, em alimentos como carne, leite e vegetais.
As yersinioses são doenças enzoóticas (epidêmicas entre animais) em várias espécies animais como roedores, pássaros, anfíbios, peixes, mariscos e animais domésticos, como o cão, o gato, o boi, a cabra e, principalmente, o porco. São também zoonóticas, pois, podem ser transmitidas dos animais ao homem. São determinadas por enterobactérias do gênero Yersinia, sendo as patogênicas para o homem a Y. pestis (praga), endêmica entre roedores e transmitida ao homem por picadas de pulgas, a Y. enterocolitica (principalmente os serotipos 0:3, o 0:5, o 0:8 e o 0:9) e a Y. pseudotuberculosis. Em vários estudos baseados em exames de fezes diarreicas provocadas por bactérias, as Yersinias apareceram em quarto lugar, sendo somente ultrapassada pelas Salmonellas, pelo Campylobacter e pela Shigella. Os grandes surtos da yersiniose no mundo foram determinados pela contaminação da água, de alimentos, do leite fresco ou mesmo pasteurizado. Na Bélgica, onde culturalmente há grande consumo, a carne de porco contaminada é causa de muitos surtos da doença. Uma lingüicinha, um lombinho, um pezinho de porco são acepipes dos deuses, mas, se não houver cuidado com a qualidade do produto, o final pode ser uma fria e pouco confortável cama hospitalar. Até o momento, não foram descritos portadores sãos na disseminação das Yersinias. As incidências maiores de serotipos diferentes na Europa e América do Norte ainda não foi bem explicada, embora sejam possibilidades fatores genéticos populacionais e variedades diferentes das bactérias.
A Y. enterocolitica manifesta-se geralmente por diarréia com fezes que podem conter catarro e sangue e, mais raramente, ser líquidas, dor abdominal em cólica, náuseas e/ou vômitos e febre. A diarréia pode durar de um dia a alguns meses. Em alguns casos pode surgir vermelhidão pelo corpo. Raramente essas bactérias podem atingir outros órgãos como as meninges, o fígado e os pulmões. Artrite reacional não é rara. Algumas vezes pode haver infecção sem sintomas. A transmissão se dá principalmente pelo consumo de alimentos ou água contaminados, mas pode acontecer de pessoa a pessoa, inclusive da mãe contaminada para os recém-nascidos. A síndrome de Reiter (artrite, conjuntivite e uretrite) pode ser encontrada em alguns caos. Além da via fecal-oral, a bactéria pode ser transmitida mais raramente por transfusões de sangue contaminado ou pela inoculação direta através da pele. A sua ação se dá por ação de genes encontrados nos cromossomos ou nos plasmídios (fora do núcleo) que determinam a produção de proteínas que facilitam a adesão das bactérias às células intestinais e sua invasão, conferem a resistência aos mecanismos de defesa do organismo e determinam a produção de toxinas. Nos ambientes ricos em ferro, como acontece nas pessoas que sofrem múltiplas transfusões e nos hemodialisados, a difusão pelo sangue da Y. enterocolitica, mais raramente a Y. pseudotuberculosis, é mais intensa e rápida.
A Y. pseudotuberculosis provoca quadro clínico caracterizado por febre, dor abdominal que pode ser difusa ou localizada no quadrante inferior direito do abdome, o que, leva muitas vezes à confusão com apendicite.
E daí, será que esse negócio dá também nos nossos passarinhos? Dá sim, e não é tão raro. É bem provável que alguns pássaros que morreram sem o dono saber a causa tenham sido vitimados por essa bactéria
Todas as espécies de aves estão sujeitas às infecções pelas Yesinias sendo que algumas, como os tucanos, são mais suscetíveis. A Y. frederiksenii, a kristensenii e a intermedia já foram isoladas de algumas espécies de aves, mas a sua patogenicidade ainda não está comprovada. Barra pesada para as aves é a Yersinia pseudotuberculosis e, dos seus seis serotipos, o 1 é o mais freqüentemente isolado. Em aves urbanas soltas, como os pombos, a Y. tuberculosis já foi encontrada em muitas. Fica dando quirerinha para pombos perto do seu aviário e verá onde o calo aperta. Ela é endêmica entre aves no norte e Europa central, de onde chegaram aos Estados Unidos, Austrália, África e Canadá, coincidentemente locais mais comuns também da Y. enterocolitica, principal Yersinia parasitária do homem. Diferentemente do que ocorre com o homem, em alguns países europeus muitos pássaros livres são portadores sãos, fonte importante da disseminação da doença. O criador mais atento já deve ter percebido que da África, da
Austrália e da Europa central vêm ou vinham a maioria dos pássaros alienígenas (eta palavrinha porreta, sô); portanto, a quarentena deles deve ser bastante controlada.
Pode ter uma evolução muito rápida com a morte do pássaro antes mesmo de surgirem os sinais da doença. Na fase aguda o pássaro apresenta-se letárgico (indiferente e/ou sonolento), dispneico(dificuldade para respirar), com diarréia e desidratação (perda de água do organismo). Com a evolução, na fase sub-aguda ou crônica, a ave torna-se emaciada(emagrecimento pronunciado), definha cada vez mais, com paresia (paralisia parcial ou temporária) ou mesmo paralisia dos membros. Às vezes, surge inchaço na junta do tarso que pode caminhar para deformidades crônicas (olha aí, Ivan, mais uma causa de dificuldade de apoio dos nossos passeriformes). Vários trabalhos mostram a intensidade da falta de ar dos canários antes da morte. Logo de cara pode ser notado aumento do baço e do fígado e a presença de exudatos nas cavidades como a pleural e a pericárdica. Um quadro patológico marcante na fase aguda são os pequenos abscessos bem demarcados e cinzas encontrados no fígado, baço, pulmões e rins. Os granulomas (tumor formado por tecido de granulação), parecidos com os encontrados na tuberculose, são achados das fases crônicas e encontrados em vários órgãos e na musculatura esquelética. Nos passeriformes, mormente nos canários, podem ser encontradas ulcerações na parede intestinal (duodeno), no ventrículo (estômago muscular ou moela) e no proventrículo (estômago glandular). A infecção pode atingir os ossos (osteomielite). Em alguns pássaros pode ser notada barriga d’água (líquido na cavidade peritoneal ou ascite). Nos exames histopatológicos são notadas áreas de necrose determinada pela coagulação sangüínea e sinais trombóticos e inflamatórios das paredes venosas (tromboflebite). Essa área necrótica, como é clássico nos tratados de histologia, é invadida por células inflamatórias facilitando a formação de granulomas.
Há possibilidades do isolamento da bactéria em laboratório, mas, num grande número de casos, até chegar o diagnóstico laboratorial o pássaro já morreu. Daí serem essenciais a grande sensibilidade clínica e o conhecimento da doença por parte do veterinário. Havendo suspeita, devem ser feitas tentativas de isolamento da bactéria. Se houve mortes, as carcaças devem ser meticulosamente examinadas e tecidos e humores colhidos para exames. O tratamento dos pássaros que tiveram contato com o doente evita a disseminação da Yersinia pelo criadouro.
Tudo é muito bonitinho no papel. Na prática a coleta do material nem sempre é possível, nem todo laboratório está apto para realizar os exames e os custos são altos para a maioria dos criadores. Portanto, mais uma vez fica claro que vale a pena investir na profilaxia, pois, ela é mais factível de ser feita na prática, não exige grandes conhecimentos e cabe no bolso de todos.
Principalmente nos casos mais graves o tratamento deve ser parenteral. Os antibióticos aos quais as Yersinias são mais sensíveis são os aminoglicosídeos, a cefotaxima, a tetraciclina, o cloranfenicol, além do quimioterápico sulfametoxazol-trimetoprima; geralmente elas são resistentes às cefalosporinas de primeira geração e às penicilinas. Nunca é demais afirmar, o tratamento deve ser sempre orientado pelo veterinário. Os criadores devem exercitar o seu lado Adão fogueteiro (segundo a minha avó, pessoa que tenta fazer algo para o qual não está capacitado) nos cuidados profiláticos.
Como a via principal de disseminação da doença é a fecal-oral, os cuidados profiláticos são basicamente os mesmos seguidos para as outras Enteobacteriáceas.
As Yersinias podem atingir o homem vindo dos animais (zoonose) e vice-versa para não ser injusto com os nossos pássaros. Portanto, além da importância do seu controle no plantel, as atitudes do criador passam a ter um sentido social mais amplo.
O controle é relativamente fácil. O principal modo de transmissão é o fecal-oral: saída dos parasitas pelas fezes, contaminação do meio-ambiente e entrada pela boca. Desconhecer esse princípio básico é dar mole para o bandido.
Especificamente, alguns cuidados podem ser tomados pelos passarinheiros para evitar que o seu criatório (criadouro. Na verdade, ainda não achei uma boa e definitiva palavra para definir o local onde são criados pássaros) torne-se foco exportador e importador de Enterobactérias:
Muitas plantas também são atrativos para os pássaros soltos visitarem o canaril.
Locais escuros, muito quentes e úmidos jogam para os bandidos.
As medidas profiláticas são econômicas e, tornadas rotinas, de fácil execução. Servem também para evitar muitas outras doenças que infernizam os criadores, como as determinadas por outras bactérias intestinais (Salmonella, Escherichia e Campylobacter) e pelos protozoários intestinais.